Todas as vezes que me perguntam onde eu acho que o surf pode evoluir, respondo que a evolução está no desenvolvimento da tecnologia das pranchas.
Nossos veículos para as ondas há muitos anos tem basicamente a mesma construção e os mesmos materiais, mas hoje as matérias-primas se desenvolveram muito e temos uma variedade enorme de tipos de fibras, resinas e blocos.

Desde o tempo em que eu fazia pranchas de windsurf e logo quando comecei a fabricar pranchas de kite em 2001, que trabalho com resina epoxy, blocos EPS (isopor). Sempre gostei desses materiais mas somente agora temos uma variedade e uma oferta muito boa de matérias-primas.

Nos últimos anos, fiz muitos testes com minha equipe em todas as modalidades de pranchas que fabrico (surf, kite e stand-up), testando vários tipos de laminação. Me atualizei na construção frequentando cursos de laminação a vacuo e só então, resolvi lançar uma linha de pranchas que acredito serem alguns dos melhores produtos que já ofereci à galera que usa minhas pranchas.

 
Entendendo a flexibilidade

A flexibilidade das pranchas sempre foi um dos meus segredos de shape. É uma coisa que poucos pensam a respeito. A prancha tem que se moldar as ondas, se encaixar. Pranchas muito rígidas, geralmente feitas em forma, não flexionam e tendem a bater, a pular na superfície da onda.

A idéia é que  quando você coloca seu peso sobre a prancha ao entrar numa onda, ela "dobra", ou seja, ela flexiona. Com isso, a curvatura de fundo da prancha aumenta, fazendo uma virada mais curta, subindo mais reto em direção ao lip da onda.

Nas pranchas de epóxi, esse efeito é muito grande, pois ela flexiona e volta a posição original com muita velocidade, o que chamamos de resiliência do material. Temos a sensação de uma prancha "viva" nos pés, gerando velocidade e impulsionando para as manobras.

Imagine se você for dar um mergulho numa piscina, correndo e pulando da borda enquanto outra pessoa corre e pula numa tábua. Com certeza a impulsão na tábua faria a pessoa ir mais longe e mais alto. E é isso que acontece com uma prancha com nosso tipo de construção e que chamamos de SPEEDFLEX.


Laminação

Um dos fatores que eu percebi é que era necessário modificar o processo de laminação em relação as pranchas laminadas com resina de poliéster.
A resina epóxi é auto-desmoldante e tem um tempo de secagem maior. Nesse processo as pranchas são lixadas diversas vezes, indo ao forno para uma melhor cura da resina.
Como o isopor é leve, podemos colocar mais fibra de vidro reforçando bastante a prancha e regulando sua flexibilidade. No final, temos uma prancha leve e muito mais forte.
Além disso, a  resina epóxi é um produto mais nobre. Uma das suas características é ser mais plástica e flexível do que a resina poliéster que, por sua vez, é mais vitrificada. O resultado é uma resina mais forte, mais difícil de quebrar.
Isso não quer dizer que a prancha não vai quebrar, porém é muito mais durável.

    Hoje, nossas pranchas de epóxi tem um processo de fabricação completamente diferente das pranchas normais e, pode acreditar, isso faz  toda a diferença. 

Conservação

Umas das coisas mais importantes é evitar a super exposição ao sol. Pranchas deixadas dentro do carro, dentro da capa por muitas horas principalmente no trânsito (melhor deixar a capa aberta para ventilar), na areia ou em outras situações, recebem uma intensidade muito grande de calor.
O isopor (EPS) é composto de 30 % massa e o restante de ar. O ar, com aquecimento intenso, expande e força a laminação para fora do bloco, causando uma delaminação na prancha.
Isso geralmente acontece quando o dono da prancha não percebe ou esquece a prancha em alguma dessas situações. Por ignorar os cuidados ou mesmo por ter se esquecido, ele pode, posteriormente, notar bolha na prancha e achar que isso poderia ter sido alguma reação do material, o que, em ocasiões normais, é uma coisa impossível de acontecer.  

Manutenção

As pranchas de epóxi devem ser consertadas apenas com resina epóxi. Em caso de emergência pode-se usar Araldite, que é encontrada em qualquer loja de ferragens. O EPS absorve muita água e demora a secar. Então, não é aconselhável cair com a prancha quebrada, nem com a proteção de tape no quebrado. Um macete para consertar sua prancha com resina poliéster (de prancha normal), é deixar a resina ficar gel e quando estiver quase dura colocar no quebrado, mas cuidado para não encostar no isopor pois irá fará com que ele derreta. Enfim, a prancha de epóxi é uma evolução em termos de material, performance e durabilidade, mas, como qualquer prancha, requer alguns cuidados.